A jornada de quem busca tratamento para a hanseníase costuma começar muito antes da primeira dose do medicamento. Para centenas de pacientes que viajam quilômetros vindos do interior de Minas Gerais rumo a Uberlândia, o percurso é marcado pelo cansaço, pela fome e pelo medo do desconhecido. Foi para transformar essa realidade que, há 16 anos, nasceu a Casa das Bem-Aventuranças (CBA), uma Organização da Sociedade Civil (OSC) que se tornou o braço humanitário do Centro Nacional de Referência em Dermatologia Sanitária e Hanseníase (CREDESH) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)..
A semente da CBA foi plantada pela observação atenta e pela indignação de profissionais do CREDESH. Eles notavam que o protocolo clínico, embora eficaz, era insuficiente diante da vulnerabilidade social dos pacientes. Claudia Fagundes, psicóloga, técnica de enfermagem e co-fundadora da CBA, recorda o impacto emocional daquela época:
“Sabíamos que essas pessoas haviam viajado durante a madrugada, muitas vezes sem dormir e sem se alimentar… Era comum ver o seu João, por exemplo, chegar cedo, em jejum, e receber cinco comprimidos de antibiótico. Íamos almoçar e ele continuava lá; voltávamos do almoço e ele ainda estava lá; o expediente terminava e ele permanecia sentado na calçada, debaixo das árvores, passando mal porque estava sem comer e tomando a medicação de estômago vazio. Aquilo nos incomodou profundamente. Então pensamos: ‘Vamos criar um lugar onde essas pessoas possam comer e descansar.’”
Diante desse cenário, os profissionais se viram sem recursos para oferecer um cuidado mais digno e foi desse sentimento de responsabilidade e solidariedade que nasceu a CBA.
Superando o preconceito contra a hanseníase e o estigma social
Se a fundação técnica da Casa foi motivada pela empatia, sua consolidação física foi dificultada pelo preconceito. Ao tentarem alugar o primeiro imóvel, os fundadores esbarraram na “lepra” do imaginário popular. Locatários desistiam do contrato ao saberem que o público-alvo eram pacientes de hanseníase.
Esse preconceito não se limitou às paredes do imóvel; ele reflete diretamente na sustentabilidade da instituição. Muitas empresas hesitam em firmar parcerias ou vincular suas marcas à causa por receio do estigma associado à doença, dificultando a captação de recursos e o apoio corporativo.
Para romper esse ciclo, é preciso confrontar o mito com dados. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, a hanseníase é uma doença infecciosa crônica e transmissível, causada pelo Mycobacterium leprae, que atinge os nervos e a pele, podendo ocasionar lesões neurais. Sem tratamento adequado e diagnóstico precoce, pode se tornar incapacitante. Claudia, especialista com mais de 15 anos de atuação na área, explica que a resistência social ainda está enraizada em uma visão arcaica. “A doença ainda é muito associada à ‘lepra bíblica’ devido à falta de conhecimento de uma época em que não havia cura”, pontua.
No entanto, a medicina evoluiu, uma vez iniciado o tratamento, a transmissão é interrompida quase imediatamente:
“Uma pessoa adoecida começa o tratamento e, 72h depois, não sente mais a doença, não tem a necessidade de afastar e isolar a pessoa… É importante saber essa informação antes de afastar familiares, conviventes e também os empregadores, pois não irá apresentar nenhum risco para a empresa e para as pessoas.” afirma a especialista.
Por isso, o combate à desinformação consolidou-se como um dos pilares fundamentais da CBA, provando que o acolhimento começa, antes de tudo, com a educação da sociedade.
Dados da Hanseníase no Brasil e em Uberlândia (2025)
A relevância da CBA é reforçada por estatísticas alarmantes. Em setembro de 2025, a OMS relatou que o Brasil permanece no topo do ranking mundial de países com maior número de novos casos de hanseníase, classificando o país como prioritário no enfrentamento da doença. Em Uberlândia, até a data desta matéria, foram registrados em 2025, de acordo com o DATASUS,153 casos de contatos registrados, sinalizando que a circulação do Mycobacterium leprae ainda é um desafio de saúde pública ativo.
Sem um diagnóstico precoce, a doença atinge os nervos periféricos e pode causar incapacidades físicas irreversíveis. É neste hiato, entre o diagnóstico médico e a reabilitação social, que a CBA atua, recebendo cerca de mil pessoas mensalmente, funcionando das 7h às 16h, a Casa oferece:
Infraestrutura e Acolhimento: A unidade conta com espaços para descanso, salas de TV e leitura, refeitório, acesso a Wi-Fi e banheiros adaptados para banho, conforme a necessidade do exame. Além de disponibilizar livros, a Casa promove rodas de conversa semanais com foco em orientação social.
Práticas Integrativas: Uma vez por semana, são oferecidas terapias como massagem, reflexologia palmar e podal, reiki e auriculoterapia. Essas atividades são abertas a pacientes, acompanhantes, membros da comunidade e profissionais da OSC, do CREDESH e do posto de saúde.
Alimentação e Insumos: Quanto aos insumos, a CBA fornece café, leite, chá de erva-doce, achocolatado, açúcar, adoçante, copos descartáveis, três variedades de bolachas e pão com margarina. O almoço também é garantido por meio de um restaurante parceiro, mediante agendamento prévio.
Desafios Futuros e a Corrente do Bem
Apesar da robustez do trabalho realizado, a CBA enfrenta os desafios típicos de uma OSC. A meta atual da coordenadora Marília Rodrigues é a implementação de uma cozinha própria, o que traria mais autonomia e reduziria custos logísticos com alimentação externa.
Marília destaca que, apesar do esforço da equipe e dos voluntários, os recursos ainda são limitados e não suprem todas as necessidades, mas a CBA segue existindo graças a pessoas, instituições e parceiros.
Com atendimento contínuo, ações de orientação e apoio aos pacientes e seus familiares, a Casa das Bem-Aventuranças desempenha um papel relevante no enfrentamento da hanseníase em Uberlândia. As iniciativas desenvolvidas pela instituição contribuem para o acolhimento, a redução de barreiras sociais e o fortalecimento da rede de cuidados em saúde, colaborando para a diminuição do estigma associado à doença. A manutenção das atividades e a ampliação dos serviços permanecem como desafios e prioridades, diante da demanda crescente e da importância do atendimento prestado à população.
Mais do que combater a hanseníase, a Casa das Bem-Aventuranças ajuda a curar algo ainda maior: o estigma, o silêncio e a solidão. E enquanto houver alguém precisando desse cuidado, ela continuará sendo esse lugar de amparo, coragem e humanidade.
Sua ajuda pode contribuir com essa história. A manutenção desse espaço de acolhimento depende de você. Para realizar sua adesão, fazer doações ou conhecer mais sobre as formas de apoio, entre em contato com a AdriaEnergia. Seja você também um agente de dignidade e transformação.